segunda-feira, 19 de março de 2012

Engenho

(Mão e Lua. Fotografia: Victor Said)
O trabalho no inferno doce
É um constante não-morrer
Reviramos a cana
Nos tachos do eterno sofrer


Nos tornamos lenha,
Quando não podemos mais rastejar
Queimamos os lábios
Na acesa e doce fornalha do amargar


O animal que leva a corda
Que arrasa e arrasta o som
Berra por um gole d’água
Suplica pra morrer
E em cada chicotada
Vira o tacho da garapa
No escravo ato de moer


Escorre o caldo
Dia e noite
Até o branco vir
Até o doce açúcar surgir
E adoçar a boca suja
Da dita sofisticada mão cristã
Do outro lado do grande mar.

2 comentários:

  1. "...O animal que leva a corda
    Que arrasa e arrasta o som
    Berra por um gole d’água
    Suplica pra morrer
    E em cada chicotada
    Vira o tacho da garapa
    No escravo ato de moer..."

    Que triste... Fiquei triste...
    Muito triste, mas muito bonito!

    Um abraço, Victor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ligéia, também acho esse poema triste. O escrevi após um estudo sobre os engenhos do Brasil colonial. A escravidão africana é uma das mais terríveis cicatrizes que marcou nossa história, sem dúvidas. Obrigado pela leitura!

      Forte abraço!

      Excluir