sábado, 14 de janeiro de 2012

Nada a Declarar

Todo poema que escrevo
Ou que finjo escrever
Carrega em seus versos
Uma ferida minha
Sou eu o meu próprio juiz
E com a condenação em punho
Deixo escorrer entre os dedos
Os mais sangrentos álibis
Decapitados.


Há por aí um puritanismo falsificado
Há um filho de Abraão a me seduzir com suas ideias antigas
Há um guarda que desprotege da chuva fria e das desgraças
E por fim, há em mim um desejo descomunal de assumir o primeiro raio de luz que pari com as dores de uma manhã qualquer .


Não construí nenhum palácio de letras
Nem escrevi no concreto e no mármore minha obra prima
Muito menos fiz de meus pensamentos estandarte divino e puro
(Mariposas Negras. Fonte: Internet)
Quando adentro o sagrado solo da imaginação
Tiro meus sapatos brilhantes e com pés nus
maculo aos passos o recinto santo e sórdido da alma atormentada 
que levo sobre as costas


Meus sapatos insignificantes e devassos são postos fora
Orientalmente colocados um ao lado do outro em posição contrária
Enquanto isso escuto das profundezas a grande ópera Carmem
Que engasga e engana sedutoramente meus ouvidos 
E por milagre faz bater surdamente o órgão cardíaco e já quase morto


Todo poema que escrevo
Ou que finjo escrever
Carrega as minhas marcas por esse verão interminável
Por essas vias tão incomuns aos meus olhos
Sem vida
Sem poesia
Sem nada a declarar.

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